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segunda-feira, 15 de março de 2010

Retórica do retrocesso

O sol brilhava forte em seu ponto mais alto. A cidade tinha um calor que chegava a incomodar os pedestres desavisados que haviam se agasalhado, pois esperavam um tempo mais ameno.
Os carros passavam mais apressados do que nunca, parecia que o mundo girava em uma rotação diferente e, de certa maneira, bólide.
Ela passava por entre as pessoas com aquele mesmo olhar baixo e submisso de antes. Jurou pra si mesma que iria ser diferente dessa vez. Que não cometeria os mesmos erros do passado que tanto a fizeram sofrer em seu presente e que tanto afetariam seu futuro. Em vão.
Sentou-se no último vagão e ficou observando pela janela suja o mundo lá fora. Aquele mundo a que ela não pertencia. Aquele mundo que nunca havia sido seu.
Um filme em preto e branco foi passando diante de seus olhos maquiados e um tanto quanto vermelhos por lágrimas anteriormente derramadas.
Os lugares, os cheiros, os sabores. Nada mais lhe pertencia. "Será que algum dia isso me pertenceu?", disse a garota em um longo suspiro. Suspiros, isso significava muito para ela. Claro, antes de seus sonhos rolarem o destino abaixo. Destino, isso significava muito para ela. Claro, antes de seus planos se arruinarem em mentiras e falsas promessas.
Cenas repetidas, construindo mesmas estórias, terminando em mesmos finais.
Ela ficava tentando se lembrar de como era sua vida antes de um furacão a ter destruído.
A mesma música, um olhar diferente. A mesma roupa, um cheiro diferente. A mesma estória, a espera de um final diferente.